03 junho, 2016

Conversã

Oxum permitiu, me banhou nas tuas águas mais claras,transparentes. Cheias de doçura - amor fértil, a nascente. Na estrada, Exu me alertou, das coincidências infelizes, das desordens mentais, as falsas línguas que lhes servem. Ogum me deu armas, para que eu não entrasse nos embates. Ele trancou a casa, meu corpo. Ossanha me trouxe tantas ervas e toda cura. Yemanjá em alto mar me ensinou sobre a imensidão, o mutável e a clareza dos pensamentos em que mergulho. Obá em um raio avisou, para que eu desconfiasse. Iansã no alto da noite rasgou meu peito, minhas forças mais profundas. Omulu em uma tarde febril não deixou que eu esquecesse das fragilidades do corpo físico. Nanã, não me deixa ter medo da morte. Xangô, ao me ver sentade entre as rochas e entre as dúvidas, me ofereceu discernimento, coragem para assumir, para amar, para ouvir e para não esconder ou mentir. Para não trair. Oxóssi em tua flecha certeira e sementes traz o alimento. Me alimenta em uma oferta de criatividades e movimento. Oxumaré em um sonho me transmutou, me trocou de pele, na dança da serpente lembrou que há os cheios de exigências,vaidades, orgulhos. Esses, os covardes. Os Ibejis no jardim me permitem brincar, uma outra e outra vez. Oxalá ao me encontrar na nuvem mais alta, criou meu caminho, iluminou os obstáculos. Falou sobre paciência e me disse sim aguardando meu sorriso.

30 maio, 2016

Onde os Girassóis se deitavam

Amor, não se trata de artigo de luxo.
Mais um corpo, outra festa. Tantos números.
Outras Inteligências. Amor, não se trata de
lógica, nem frenesi. Do último livro lido ou
quantas relíquias guardo na estante. Amor,
não se trata de quantas línguas eu falo ou
do tamanho dos meus seios. Amor, não esta
em cada esquina, não sai brotando do chão.
E não depende das fases da lua.
Amor! Palavra que circula. Anseio das pessoas. Teorizam, pouco praticam. Quem o ganha, desperdiça. Quem não tem, ambiciona. Quem perde, se aflige.
Não entendem dos detalhes,
sufocam honestidades. Enfaixam de rótulos.
Fatiam os lados. Turvam a transparência.

O dia estava claro, as mãos soltas de veludo,
deslizavam sobre o extenso cobertor de pele quente. Pele morena, queimada do sol de outono. Curvas largas onde os girassóis se deitavam. Plantação. Uvas, trigo, oliveiras. A alfazema embriagava esquilos rente ao solo, exercícios das formas em abundância. Raposa, pêssegos e seda. Abstratas paisagens brindam o vinho, a relva, odara! Os Vinis estimulados, gozam jazz. E a poesia liberta a intuição. Línguas passeiam pelas orelhas e desfrutam planos que escorrem tinta. Todas as cores. Como quando se levanta e os olhos desejam o horizonte. Não há cedo, nem tarde e gargalhamos das dúvidas. Interiores em desfrute.

25 maio, 2016

Folhas de Prata

Duras folhas que pareciam das
árvores, mas a medida que caminhava
de prata se tornavam. E assim,
refletiam meu olhar cuidadoso
para que não as sujassem. E esse
mesmo olhar me lembrava do quanto
era o tamanho de meu respeito pelo
teu corpo. Ao desvendar os mistérios
das dobras as quais neste frio que
corta eu podia esquentar com o calor
que impulsiona meu corpo a magnetizar
o teu entre as minhas lacunas de
cheiro de coco e baunilha, como
quando esquentamos o café e a casa
é invadida pelo aroma que gera
suspiros e vontade. Uma vontade
leve como as belezas da infância.
Quando não temos que pensar no tempo,
na duração dos prazeres e apenas
esperamos uma outra brincadeira ou
ainda um doce sabor que alegra.
As vezes o que é rude nos deixa
triste, ou ainda quando somos contrariados
nos resta a birra, os braços cruzados.
Mas se houver doçura, curamos e assim
sorrimos de novo e seguimos para
uma outra descoberta de amor puro.
Quando ainda não nos deixávamos seduzir
por qualquer sorriso, qualquer conteúdo.
O tempo não cura tudo como gostam de
dizer por ai em panfletos de autoajuda,
mas ele revela. Revela como o sol quando
nasce no horizonte. E penso que depois
de tantos dias de festa, podemos novamente
acreditar que tudo possa se recriar e
cansados desejaremos a companhia acolhedora, onde o sol brilha no teu rosto e eu o contemplo adormecido.

Eco Cardio

Cardio Eco tuas partituras
sorridentes, o pesadelo clarificado.
Invocação aos Negros Arcanjos.
Hamied é o milagre que hei de
acreditar. Prateleiras do pensamento -
Frascos Inutilizados sobressaem as
matérias etéreas das contemplações
mais importantes em duo. Em duo,
par, junto a toda natureza.
57 nós que disparam sons e libertam
o incenso pelas janelas ovulares.
Refletem faces pintadas por Goya
e todo seu anarquismo autorizado.
Arte Asséptica, limpa, bem aceita,
o recorte perfeito. Filhas de médicos.
Famílias bem estruturadas. Fúria aos
domingos. Vamos nos vestir como se
estivéssemos em um filme de Godard
e doutrinar nossos impulsos mais
selvagens. A textura do morango em
minha língua grossa e azeda. Pupilas
contraídas como quando desejamos,
extinguir uma memória. Uma pessoa.
Duas pessoas sendo enganadas.
Manipulação dos afetos. Eco cardio.